sexta-feira, 18 de julho de 2008

Teologia Biblica

A Paz Queridos estarei publicando nesses dias uma serie de estudos biblicos para todos os irmãos interessados em estudar mais profundamente a palavra de DEUS espero que todos gostem

A fonte Principal desses artigos e o do irmão Pr. Luciano Costa (http://www.angelfire.com/zine2/lucianocosta/teobiblica.html#ANTIGO)





BABILÔNIA





Pr. Luciano Costa

I – Introdução

A destruição de Jerusalém e o exílio subseqüente marcam a grande linha divisória da história de Israel. De um golpe, sua existência nacional terminou e, com ela, todas as instituições sobre as quais sua vida de corporação se tinha expressado: nunca mais Israel seria recriado precisamente da mesma forma. Com o Estado destruído e, como conseqüência natural, como culto oficial supresso, chegara ao fim a antiga comunidade de culto nacional. E Israel se tornara, no momento, um aglomerado de indivíduos arrancados de suas raízes e vencidos, não mais um povo por nenhuma marca externa. Porém, a maravilha está em que sua história não terminou, apesar de tudo. Israel não somente sobreviveu à calamidade, mas, formando uma nova comunidade das ruínas da antiga, retomou sua vida como povo. sua religião, disciplinada e fortalecida, igualmente sobreviveu, encontrando aos poucos a direção que deveria tomar nos séculos futuros. No exílio, e depois do exílio, nasceu o Judaísmo.

II – A terra de Babilônia

Território do sudoeste da Ásia, atualmente sul do Iraque, que derivou seu nome da capital de Babilônia. É também chamado de Sinear (Gn 10:10; 11:2; Is 11:2; Js 7:21), e mais tarde chamado ‘terra dos caldeus’ (Jr 24:5; Ez 12:13). Nos dias recuados na antigüidade tinha o nome de Acade (Gn 10:10) nas regiões nortistas, e tinha o nome de Suméria nos limites sulistas aluvionais e pantanais das margens do golfo pérsico; um território que mais tarde passou a ser chamado estritamente de Caldéia, um termo para o país inteiro após a elevação da dinastia ‘caldica’. Assim é que os babilônios (benê bãbhẽl, filhos da Babilônia) são também qualificados como caldeus (Ez 23:15,17,23). A Babilônia regada pelos rios Tigre e Eufrates era cogitada a ser o local do Éden e da Torre de Babel, e foi o país para onde os judeus foram levados exilados.

O pequeno país plano, com cerca de 13.000 quilômetros quadrados, era limitado ao norte pela Assíria (Samarra-Jebel Hanrim como fronteira), a leste pelas colinas persas, a oeste pelo deserto da Arábia, e ao sul pelas margens do golfo pérsico.

As cidades principais, dentre as quais Babilônia, Ereque e Agade são mencionadas pela primeira vez no Antigo Testamento (Gn 10:10), com Nipur, Ur, Eridu e Lagasa, ficavam todas localizadas às margens ou perto do rio Eufrates.

III – O período do exílio babilônico

O século entre o ocaso do império neo-assírio (aproximadamente 630 – 612) e a conquista da Babilônia pelo rei persa Ciro II (539) é designado como “período babilônico” com razão e por vários motivos. Por um lado, foi o império neo-babilônico, sob a dinastia dos caldeus que assumiu a herança da Assíria em amplas partes do Antigo Oriente Próximo. Por outro lado, foi justamente esse império que deve ser tido como fator de poder determinante na história antiga do Oriente naquele período: uma estrutura de poder que colocou em segundo plano todas as outras potências orientais maiores e menores. E, por fim, não se pode ignorar a extraordinária influência cultural que se irradiava da Babilônia para os países do Oriente Próximo, de certo modo centrada e representada simbolicamente na cidade da Babilônia, construída com enorme luxo e esplendor, a capital do mundo de então.

O exército de Nabucodonosor deixou Jerusalém em ruínas. Como as evidências arqueológicas testificam eloqüentemente, todas, ou virtualmente todas as cidades fortificadas no interior de Judá foram arrasadas, em muitos casos para não serem nunca mais reconstruídas (Lm 2:2-5). Somente no Negeb, aparentemente separado de Judá em 597, e na área próxima a fronteira norte, que pode ter sido parte da província babilônica de Samaria, algumas cidades escaparam da destruição. Além dos que foram deportados para a Babilônia milhares devem ter morrido nos campos de batalha, de fome ou de doença (Lm 2:11ss; 19-21:4,9ss); alguns foram executados, enquanto outros (Jr 42ss) procuravam salvar suas vidas fugindo.

Começou a época da diáspora. Grupos consideráveis de pessoas de origem israelita viviam fora de sua pátria entre povos estranhos, e precisamente entre eles prepararam-se desdobramentos que, no tempo subseqüente, haveriam de tornar-se significativos para a história do povo de Israel, do judaísmo e, inclusive, do cristianismo.

Na palestina, depois das duas deportações de 598/7 e 587/6 a.C., ficara para trás uma população que, quantitativamente, decerto não era pequena: tratava-se sobretudo da população rural, em grande parte privada de sua camada de lideranças urbanas e incapacitadas de agir politicamente (II Rs 24:14; 25:12). No entanto, seria errado descartar, de certo modo, a Palestina e subestimá-la em sua importância. Por outro lado, grupos populacionais consideráveis migraram para o Egito, por último em conexão com o assassinato de Gedalias (II Rs 25:26; Jr 41:17s; 42; 43:7; 44:1). Pouco se ouve falar a respeito deles. Dissolveram-se na diáspora egípcia, que estava se tornando cada vez maior e mais tarde – sobretudo no período helenístico – alcançaram uma importância considerável.

Durante os cinqüenta anos do exílio pode-se presumir que, quando a situação se acalmou, os refugiados voltaram (Jr 40:11,12), juntaram-se à população que tinha ficado na terra e passaram a levar uma vida feita de todas as espécies de dificuldades. De fato, seu estado era realmente triste e precário (Lm 5:1-18). Quanto ao templo, embora tendo sido incendiado, ainda continuavam a afluir – e também ao norte de Israel (Jr 41:5) – para oferecer sacrifícios entre as ruínas tostadas. Praticava-se aí uma espécie qualquer de culto, embora esporadicamente, durante o período do exílio.

Porém, embora houvessem homens justos em Judá que, como seus irmãos distantes, se lamentavam sobre Sião e suspiravam por sua restauração, todavia, eles não tinham um chefe e, sem ajuda de ninguém, não podiam fazer mais do que sonhar. O impulso para a restauração, quando chegou, não partiu deles. É muito provável que a lealdade religiosa desse pobre povo tenha sido seriamente abalada e que seu javismo já não fosse um javismo puro. Pelo menos era assim que os profetas da época o consideravam (por ex.: Ez 33:24-29; Is 57:3-13; 65:1-5 e 11ss).

O que podemos observar ainda é que a elite do povo fora levada para a Babilônia em ambas as deportações. Esses desterrados constituíam o verdadeiro grupo de exilados (em hebraico, gola; Ez 1:1,3: 11:15 e passim) e a eles ligaram-se grandes esperanças para o futuro. em seu círculo atuaram os profetas Ezequiel e Deutero-Isaías (Donner, Herbert. Pág. 435, 1997), reforçando a consciência de que Iahweh foi para o exílio com o verdadeiro e autêntico Israel.

IV – Na Babilônia

Freqüentemente as pessoas têm uma imagem errônea da vida dos exilados na Babilônia. Mantêm-se concepções românticas, difíceis de erradicar, surgidas a partir de interpretações equivocadas de informações veterotestamentárias e nutridas pela piedade judaica e cristã. Vêem-se os deportados numa situação miserável, realizando duro trabalho escravo sob a opressão de capatazes estalando o relho, como um exército de prisioneiros dignos de compaixão. após o fardo e a fadiga do dia, eles se assentavam junto às margens dos rios de Babilônia, quem sabe com suas correntes tilintando, e choravam ao se lembrarem de Sião (Sl 137:1). Tudo isso não corresponde à realidade. Por certo as fontes não chegam a fluir fortemente, mas a fazem com força suficiente para revelar que a imagem tradicional do cativeiro babilônico é incorreta. Os sofrimentos dos exilados eram interiores e não se baseavam em suas condições de vida. Uma parte da classe alta de Jerusalém e Judá, decerto sobretudo a corte do rei Joaquim, foi levada para a cidade da Babilônia, a metrópole do império (II Rs 24:15; 25:27-30). Aí os banidos levavam uma vida razoavelmente confortável. A maior parte dos exilados foi assentada pelos babilônios em diversas colônias que possivelmente pertenciam à propriedade dos reis (terras da coroa). Aí eles viviam na condição de súditos reassentados à força, mas de modo algum como escravos. Tinham relativa liberdade de ir e vir, podiam construir casas, cultivar plantações, praticar o comércio e levar uma vida normal, correspondente às circunstâncias (Jr 29). Administravam-se a si mesmos, sob a direção dos “anciãos entre os exilados”, ou “do povo”, ou até “de Israel” (Jr 29:1; Ez 8:1; 14:1; 20:1) - exatamente como na velha pátria. Permaneceram organizados em famílias (Ed 2=Ne 7) e cultivavam suas genealogias (Ed 2:59; Ne 7:61). Alguns deles chegaram a um bem-estar considerável (Ed 1:6; 2:68s). Até mesmo o comércio de escravos lhes era permitido (Ed 2:65). Em nenhum lugar está documentado que eles foram obrigados à corvéia. Se tivesse sido o caso, isso não os teria diferenciado da população babilônica nativa; também isso era convocada para a corvéia, por exemplo, em projetos de construções régias.

Sobre as vicissitudes posteriores dos exilados, não sabemos quase nada. Alguns deles, como já indicamos, foram envolvidos em distúrbios em 595 ou 594, pelo que alguns de seus líderes sofreram represálias (Jr 29). Mais tarde (depois de 592), Joaquim foi lançado na prisão, provavelmente por cumplicidade ou suspeita de cumplicidade em alguma ação sediosa (II Rs 25:27-30); e lá ficou durante todo o resto do reinado de Nabucodonosor. Mas não sabemos se este fato tinha ligação com os acontecimentos de 587, e se estava envolvido neles uma parte considerável da comunidade judaica.

Afinal, não há evidências que os exilados sofressem tratamento severo, além do tratamento próprio da sua condição de exilados. Pelo contrário a vida na Babilônia deve ter dado a muitos oportunidades que eles nunca teriam na Palestina. Com o passar do tempo muitos judeus, como começaram a ser conhecidos, entraram no comércio e enriqueceram.

Um dos objetivos da prática assíria de deportação consistira em fazer com que os deportados, na medida do possível, fossem absorvidos pela população nativa. Isso não aconteceu na Babilônia – pelo menos não num primeiro momento. Os babilônios parecem nem ter querido isso, senão dificilmente teriam instalado colônias coesas de exilados; pois nessas colônias a consciência nacionalista permaneceu viva e aí ardia a chama da esperança de regresso à pátria. Com exceção de indivíduos isolados que migraram para o ambiente babilônico, os exilados permaneceram juntos. Para eles a Babilônia era um país estranho e impuro (Ez 4:13): um país no qual não era possível se sentir em casa e no legítimo culto a Iahweh não era viável. Este, desde a reforma josiânica, era permitido exclusivamente em Jerusalém. Neste aspecto a destruição do templo salomônico e a perda da arca nada haviam mudado, pois a eleição e a santidade do lugar não dependiam do prédio nem do objeto de culto. Assim, os exilados viviam da lembrança de Jerusalém, e a saudade da velha pátria, que na segunda geração certamente começou a esfriar, ligou-se com a idéia jerosolimita a Iahweh e foi mantida desse modo (Sl 137).

Não existem quaisquer informações sobre a vida cultural. Naturalmente é plausível supor que tenham começado a se desenvolver as forma prévias e primitivas do posterior culto sinagogal, contudo, isso não está documentado em lugar algum. A formulação enigmática de Ez 11:16: “Eu (Iahweh), (apenas) por um pouco de tempo lhes servi no santuário”, poderia no máximo apontar para formas emergenciais do culto. Além disso, é totalmente desconhecido o que aconteceu com o pessoal do culto de Jerusalém. O que faziam os sacerdotes, levitas, cantores e servidores do templo (netinim) no exílio? Dedicaram-se a profissões civis? Conservaram seu status religioso? Viviam juntos em determinadas colônias de exilados? Só é possível perceber ainda que, no exílio, tornaram-se importantes duas atitudes que, embora também já houvessem existido anteriormente, agora passaram a constituir sinais da aliança entre Iahweh e seu povo esperançoso, adquirindo caráter confessional: o descanso no sábado (Ez 20:12ss; 22:8,26; 23:38) e a circuncisão (Gn 2:1-4 a P e 17 P).

Mesmo assim, quando se considera o vulto da calamidade que caiu sobre Israel, não é de se admirar que ele não tenha sido tragado pelo vórtice da história juntamente com as outras pequenas nações do oeste da Ásia, que não perdesse para sempre sua identidade como povo. e se se pergunta por que tal não aconteceu, a resposta está certamente em sua religião: a religião, que lhe deu existência, mostrou-se sobretudo capaz de tal prodígio. contudo, esta resposta não deve ser dada impensadamente, porque o exílio provou ao máximo a religião de Israel. O que Israel conquistou não aconteceu automaticamente mas somente depois de muita meditação e de um profundo reajuste.

Com a queda de Jerusalém, a emergência teológica descrita no capítulo precedente alcançou proporções críticas. O dogma sobre o qual se baseavam o Estado e o culto tinham recebido um golpe mortal. Este golpe foi representado pela certeza da escolha eterna de Sião por parte de Iahweh para sua morada terrena e suas promessas incondicionais a Davi de uma dinastia que nunca teria fim.

Protegido por este dogma, a nação ficou segura e, rejeitando as admoestações proféticas em contrário como tremendas heresias, esperava confiantemente a poderosa intervenção de Iahweh e um futuro que trouxesse o rebento ideal da linhagem de Davi – talvez o próximo – sob o qual o domínio justo e benéfico de Iahweh haveria de estabelecer-se, realizando todas as promessas dinásticas.

Este era o destino da história nacional que deveria aguardar com toda a certeza, além do qual não havia mais nada a desejar. Os aríetes de Nabucodonosor, naturalmente, derrubaram irreparavelmente esta teologia. Era uma falsa teologia, e os profetas que a tinham proclamado, mentiram (Lm 2:14). Nunca mais ela voltaria completamente na forma antiga.

Com isto, encaremos a verdade, a própria veracidade do Deus de Israel foi posta em dúvida. A religião de Israel, apesar de seus deslizes, sempre foi de natureza monoteística. Embora não formulasse abstratamente o monoteísmo, desde o começo ela só concebia a existência de um único Deus, declarando que os deuses pagãos eram entidades negativas, "não-deuses ".

Mas como se explicaria tudo isso, se a teologia oficial e nacional ruiu sob os golpes de uma potência pagã? Os deuses da Babilônia seriam realmente entidades negativas, "não-deuses"? Não seriam realmente deuses poderosos? É assim que muitos judeus devem ter pensado no seu íntimo. Dessa maneira, era forte a tentação de deixar a religião ancestral (Jr 44:15-19; Ez 20:32). Entretanto, outros feridos pela desgraça, sentindo que ela era, de certo modo, a vontade de lahweh, dirigiam-se à justiça divina com altas Iamentações (Ez 182:25; Lm 5:7). Mesmo as melhores pessoas, aquelas que tinham recebido a palavra profética, estavam mergulhadas no desespero, temendo que se tivesse cometido um pecado mortal e que Iahweh, em sua ira, houvesse se desligado de Israel e cancelado seu destino como seu povo (Is 63:19; Ez 33:10; 37:11). Com lágrimas nos olhos, eles clamavam por misericórdia, mas não viam o fim dos seus sofrimentos (SI 74,9ss- Lm 2,9).

Havia uma ameaça geral de perda da fé. Esta ameaça agravou-se quando os judeus, arrebatados de sua terra natal, entraram em contato direto cem os grandes centros de cultura da época, a maioria deles pela primeira vez. Jerusalém, que, nas suas mentes estreitas, era o próprio centro do universo de Iahweh, deve ter parecido por comparação realmente atrasada e retrógrada. Tendo diante dos olhos riquezas nunca sonhadas e poderes quase ilimitados, com templos magníficos de deuses pagãos em toda parte, deve ter ocorrido a muitos deles a dúvida de que Iahweh, o Deus Soberano de um pequeno Estado que ele parecia incapaz de proteger, fosse realmente, afinal de contas, o único e supremo Deus.

A gravidade da tentação de apostatar depreende-se da grande polêmica de Isaías (cc. 40 a 48), que, aliás, não teria sido necessária. A religião de Israel estava sendo provada numa situação de vida ou morte. Naturalmente, ela não podia continuar como um culto nacional, apegada ao status quo ante como se nada tivesse acontecido. Ela tinha que esclarecer sua posição diante das grandes nações e de seus deuses, diante da tragédia nacional e de sua significação – ou então perecer.

Embora o teste tenha sido severo, a religião de Israel fez-lhe frente vitoriosamente, mostrando uma admirável tenacidade e vitalidade. Uma solução para o problema - que, essencialmente, desse uma adequada explicação teológica do desastre nacional e do fato de manter-se viva uma chama de esperança para o futuro – já tinha, de fato, sido dada anteriormente pelos próprios profetas que viveram a tragédia, particularmente Jeremias e Ezequiel. Isto já indicamos no capítulo anterior. Anunciando-a incessantemente como um justo julgamento de Iahweh devido ao pecado da nação, estes profetas deram à tragédia uma explicação coerente, permitindo que ela fosse encarada não como uma contradição, mas como uma justificação da religião histórica de Israel. Além disso, suas afirmações, mesmo quando demoliam falsas esperanças no triunfo final da intenção redentora de Iahweh, davam a todos uma esperança à qual apegar-se. 0 exílio poderia ser visto como um castigo merecido e como um expurgo que preparava Israel para um novo futuro. Com estas palavras, e afirmando ao povo que lahweh não estava longe dele, mesmo na terra do exílio, os profetas preparavam o caminho para a formação de uma nova comunidade.

Obviamente, não se pode falar sobre religião no exílio babilônico sem lembrar os dois grandes profetas aos quais os exilados - ou pelo menos parte deles - deviam a reflexão e a renovação espiritual. Eles interpretaram a sina do povo como castigo de Iahweh e ensinaram a compreender o exílio não como o fim do passado, mas como o início do futuro.

1. Ezequiel. Um jerosolimita procedente de círculos sacerdotais, já foi deportado em 598/7 e assentado em Tel Abibe junto ao Canal de Quebar em Nippur. Lá, em 593, ele vivenciou a vocação para profeta (1-3). Até 587/6, atuou quase exclusivamente como profeta de juízo, anunciando de maneira incansável, através de diferentes imagens e atos simbólicos, a queda de Jerusalém (1-24). Valendo-se de grandes retrospectivas teológico-históricas (16; 20; 13), ele ensinava a conceber a história de Israel como uma história da apostasia de Iahweh, à qual Já teria se seguido o castigo e necessariamente teria de continuar se seguindo. Mas, depois de 587/6, tomou-se o profeta da renovação e restauração vindouras, da restitutio in integrum; considerava os exilados, entre os quais vivia e atuava (34-37), como portadores dessa restituição. Em nenhum lugar isso está expresso de modo mais grandioso do que na visão fantasmagórica da ressurreição dos ossos secos (37:1-14). Num vale, o profeta vê inúmeros esqueletos secos e esbranquiçados, que, a uma ordem de Iahweh, passam a cobrir-se de tendões, carne e pele, diante de seus olhos:

Então me disse: Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel. Eis que eles dizem: nossos ossos se secaram, e pereceu nossa esperança; estamos de todo exterminados! Portanto, profetiza e dize-lhes: Assim diz o Senhor Iahweh: Eis que abrirei vossas sepulturas e vos farei sair delas, [ ... ] e vos trarei à terra de Israel, para que saibais que eu sou Iahweh, quando eu abrir vossas sepulturas e vos fizer sair delas [ ... 1, Porei em vós meu Espírito e vivereis, e vos estabelecerei em vossa própria terra. Então sabereis que eu, Iahweh, disse isto e o fiz, diz Iahweh. (37.11-14)21.

Além disso, Ezequiel esperou e anunciou o restabelecimento da unidade de Israel: a concretização da velha esperança, nunca completamente abandonada, viva no Reino do Sul, Judá, de restauração do reino unido davídico-salomônico (34:17-31; 37:15-28). Por fim, Ez 40-48 contém um verdadeiro programa de restauração, o chamado "projeto de constituição" para o Israel ressurgido e unido. Esse projeto seguramente não provém do próprio profeta, mas poderia ter surgido em círculos de seus discípulos e seguidores no exílio babilônico25.

2. Dêutero-Isaías. Assim se chama um profeta anônimo cujo legado literário se encontra em Is 40-55 e que atuou perto do final do exílio, nos anos 40 do séc. 6 a.C., em local desconhecido na Babilônia. Com grande ênfase ele anunciou a libertação e o retomo dos exilados, que se daria, segundo o modelo do êxodo do Egito, na forma de uma enorme procissão, liderada por Iahweh, através do deserto até Jerusalém (40.1-5; 43.14-20; 49.843; 52.7-12 e passim). A libertação e o regresso, porém, estão relacionados com a grande virada histórica que está ligada ao nome do rei da Pérsia, Ciro II. Dele Dêutero-Isaías esperava a derrubada do império neo-babilônico e o fim do exílio (45.1-7 e passim): Ciro II é águia (46.11), justo (41.2), pastor (44.28) e messias (45. 1). Após o regresso e a entrada triunfal de Iahweh em Jerusalém, segue-se a grande restauração: a renovação de Jerusalém e do templo (49.14-21; 49.22s.; 51.1-3 e passim), paz e salvação para Israel (54.11-13), a volta à pátria de toda a diáspora (43.5-8) e a peregrinação dos povos ao Sião (49.23). Dêutero-Isaías apresentou e inculcou continuamente fé e esperança nos exilados. Assim como sua própria atividade profética é um sintoma da agitação frente à passagem iminente do domínio babilônico para o persa, uma grande agitação também deve ter partido dela e contagiado os exilados.

V. Palestina

Lamentavelmente só se sabe pouco sobre a situação da Palestina durante a época do exílio babilônico. No entanto, esse pouco exige também aqui uma correção das concepções correntes. A Palestina, em especial a região do findo Reino de Judá, de modo algum era um deserto escassamente habitado por pastores e agricultores pobres, como certas manifestações poéticas do Antigo Testamento poderiam fazer crer. É certo que a guerra havia sugado o país, a vida se tomara dura, mais dura do que antes. A população havia perdido a maior parte de suas lideranças intelectuais e políticas e se encontrava em opressiva dependência econômica, Uma expressão poética dessa situação é a coletânea de lamentos muito artísticos no Livro das Lamentações, o qual provavelmente surgiu não muito depois de 587/6 e foi, mais tarde, atribuído ao profeta Jeremias. Contudo, esses cânticos apresentam espantosamente poucos dados e informações concretas sobre a situação do país e de seus habitantes. Neles prevalece a queixa geral, a respeito da miséria que atingiu Jerusalém e Judá; eles não são tanto um retrato, mas, antes, unia expressão das circunstâncias. De qualquer modo, é possível perceber ou, pelo menos, supor que os habitantes do país exausto ainda tinham de pagar tributos indiretos:

Nossa água por dinheiro a bebemos, por preço vem nossa lenha.

Nossos perseguidores estão com “um jugo” sobre nossos pescoços; trabalhamos até a exaustão, "e" não temos descanso. (Lm 5:4s.).

O v. 5 permite concluir que havia corvéia, que era exigida da população, como também se depreende de Lm 5:13:

Os jovens têm de levar a mó, e os meninos tropeçam debaixo das cargas de lenha.

Em tudo isso faltava proteção eficaz por parte do poder estatal babilônico; o país estava à mercê de nômades salteadores:

Com perigo de nossas vidas providenciamos nosso pão, ameaçados pela espada do deserto. (Lm 5.9)

Além dos nômades, eram sobretudo os edomitas que, nessa época, lucravam às custas de Judá. Talvez Nabucodonosor já lhes tenha deixado em 598/7 a parte meridional do Reino de Judá. Além disso, porém, sem que se saiba como, eles souberam tirar partido da catástrofe do ano de 587/6; por isso, os judaítas lhes reservaram um ódio amargurado até depois do exílio.

De resto, quase nada se sabe sobre a sina dos estados periféricos da Transjordânia nessa época. Eles parecem ter sido atingidos pelos acontecimentos ocorridos em Judá no máximo de modo marginal e ter conservado inicialmente sua autonomia. Queremos deixar em aberto se a informação de Josefo, em Ant. X, 9, 7 (§ 181s. Niese), sobre uma campanha de subjugação de Nabucodonosor contra Amom e Moabe, no ano de 583/2, é fidedigna.

Face a tudo isso, não se poderá dizer que na Palestina houvessem reinado circunstâncias aprazíveis durante o período do exílio babilônico. Mas deve-se contar com a possibilidade de que, depois de diminuir a impressão imediata da catástrofe, tenha se estabelecido certa calmaria: por assim dizer, uma normalização da situação seguramente nada invejável. Também para a Palestina, o tempo do exílio foi uma fase de reflexão e renovação espiritual. É de se lamentar que saibamos tão pouco a respeito disso. Todavia, de qualquer modo deve-se lembrar que nessa época surgiram - quase que com certeza na Palestina – a forma primitiva e a primeira configuração da Obra Historiográfica Deuteronomista. É verdade que nada se consegue depreender dela sobre a situação reinante na terra natal; ela termina com a catástrofe de 587/6 e com o epílogo sobre a reabilitação de Joaquim no ano de 562. Todavia, apenas o fato de ela ter surgido é sinal da existência de um trabalho intelectual vivo, de um esforço para superar o passado também no solo da Palestina.

Mesmo a voz do profetismo não emudeceu totalmente na Palestina 17 . Mais ou menos na mesma época em que Dêutero-Isaías anunciava aos exilados o fim próximo de seu cativeiro, também na terra natal atuou um profeta do qual são transmitidas anonimamente três visões extáticas no Livro de Isaías: Is 21.1-10, 11-12, 13-17 . O assunto dessas visões é a queda de Babilônia. O abalo que o império neo-babilônico sofreu na última fase de sua existência foi registrado como que sismograficamente no distante oeste:

Então ergueu a voz e disse: Caiu, caiu Babilônia! E todas as imagens de seus deuses “jazem” despedaçadas por terra! (V. 9).

O fim da opressão chegou bem perto. Pode-se descrevê-lo com as categorias de dia e noite, como o crepúsculo antes do nascimento do sol:

Gritam-me de Seir: Guarda, a que horas estamos da noite? Guarda, a que horas? Respondeu o guarda: Vem vindo a manhã, mas ainda é noite. Se quereis perguntar, perguntai! Voltai! (Vv. 11).

O exílio babilônico foi uma época de miséria e opressão, mas também de mudança e reflexão. Podemos, no máximo, pressentir quanto daquilo que se tornou historicamente eficaz no período pós-exílico já fora preparado durante a época exílica. Ezequiel, Dêutero-Isaías, a Obra Historiográfica Deuteronomista e as Lamentações - a lembrança disso deveria guardar-nos de subestimar esse período da história de Israel.




3 comentários:

Edimar Suely disse...

A paz do Senhor,
Amei seu espaço e pretendo voltar sempre.

Desejo um lindo domingo na presença do Senhor e paz.

Smack!

Edimr Suely
jesusminharocha.blig.ig.com.br

Edimar Suely disse...

A paz do Senhor,
Amei seu espaço e pretendo voltar sempre.

Desejo um lindo domingo na presença do Senhor e paz.

Smack!

Edimr Suely
jesusminharocha.blig.ig.com.br

Marcos disse...

A Paz Edimar obrigado pela visita volte sempre mesmo, e adorei seu blog em breve vou link-lo na barra de parceiros meus ok?

Fique na paz de Cristo